O Santo que não acreditava em Deus


Dr. José Tomás de Sousa Martins 


foi um homem extraordinário, que se desta­cou no campo da medicina, da farmá­cia, da intervenção social e até da lite­ratura. Foi inúmeras vezes comparado a Ro­bin dos Bosques, não porque roubasse os ri­cos, mas por lhes co­brar avultadas somas pelas suas consultas médicas. Aos seus doen-tes mais pobres não co­brava nada, e não eram poucas as vezes que deixava dinheiro em cima das mesas de cabeceira, junta­mente com as receitas — para os me­dicamentos e para alguma comida que lhes confortasse os estômagos famin­tos. Entre os salões mais nobres e os la­res mais miseráveis do reino, Sousa Martins ganhou o prestígio e a desig­nação de santo. Foi imortalizado aos olhos do povo.
Nunca gostou que lhe atribuíssem tal notoriedade, nunca escreveu nada sobre si próprio, nem sobre o seu tra­balho, apenas sobre as suas investiga­ções, as suas conclusões médicas, as obras a que se dedicava. Aquilo que se sabe sobre a sua história é aquilo que os outros escreveram sobre ele, daí que seja uma história repleta de pontas sol­tas que se entrelaçam qual teia de ara­nha. No entanto, o seu nome ficará para sempre ligado à construção do primeiro sanatório em Portugal, loca­lizado na serra da Estrela, bem como à construção do Jardim Zoológico. Na luta contra a tuberculose teve a sua maior bandeira e também a causa da sua morte.

DE ALHANDRA A LISBOA
«Quando entrardes de noite num hos­pital e ouvirdes algum doente gemer, aproximai-vos do seu leito, vede o que precisa o pobre enfermo e, se não ti­verdes mais nada para lhe dar, dai-lhe um sorriso», este era um dos lemas que se cumpria na enfermaria onde esta­vam os seus doentes, no Hospital de São José. Fazia questão de ensinar os seus alunos não só a tratar os pacien­tes, mas também a acalentá-los. Foi esta forma de ser e os doentes que foi resgatando à morte que o tornaram aos olhos do povo um santo e um mila­greiro.
À época vivia-se uma crise de fé na Igreja Católica em Portugal, o povo, cansado e esfomeado, tendia a olhar para além da Igreja que sempre tinham conhecido, e os homens bons serviam o propósito de quem precisava de acre­ditar em algo. Os católicos continuam a venerá-lo como santo, os espíritas in­tegram-no, a Igreja Apostólica Episco­pal santificou-o em 1990. Cada um da sua forma e na sua religião lhe presta homenagem, mas há locais de culto por excelência: o Campo dos Mártires da Pátria, diante da sua estátua e da «sua» Faculdade de Medicina; na Guarda, onde passou parte da sua vida a implementar o sanatório e onde o hospital distrital ainda mantém o seu nome; e em Alhandra, a vila onde nas­ceu em 1843 e onde morreu aos 54 anos, em 1897.
José Tomás nasceu nesta terra de gentes humildes, a uns escassos 30 quilómetros de Lisboa, a 7 de março. O quarto filho de Caetano e Maria das Dores nasceu na casa de família, na antiga Rua do Cais, atualmente desig­nada Avenida Sousa Martins. Em Alhandra vivia-se, sobretudo, do que o rio e a terra davam. O pai seria carpin­teiro e a mãe dedicava-se a cuidar dos filhos, da casa e da horta. Esta é a ver­são mais consensual relativamente às origens do médico. Uma versão em tudo semelhante à história de Jesus Cristo, também ele filho de um carpin­teiro, também ele nascido pobre, tam­bém ele «milagreiro». No entanto, há indícios de que a história familiar seja diferente. A casa de dois pisos junto ao rio seria, já à época, uma casa de pes­soas com algumas posses. Sabe-se que a mãe seria de um estrato social supe­rior ao do pai, e, efetivamente, nas ima­gens que se conhecem de Maria das Dores, esta traja não como as mulheres pobres da época, mas como as senho­ras mais abastadas do reino. Do que não restam dúvidas é da morte precoce do chefe de família e do terceiro filho do casal, Caetano.
José Tomás cedo assumiu o papel de homem da casa. A mãe desejava me­lhor sorte para o filho do que ficar por Alhandra. Desejava que o filho sou­besse ler e escrever. Que fosse para a cidade, que seguisse o curso do rio e fosse para Lisboa. Era ainda menino quando foi viver com o irmão da mãe, Lázaro Pereira. Tinha 12 anos quando chegou à capital. Acumulava os estu­dos em Humanidades no Liceu Nacio­nal de Lisboa com o trabalho de apren­diz na Farmácia Ultramarina, proprie­dade do tio e que se situava na Rua de São Paulo, junto ao Cais do Sodré. Durante muitos anos, mesmo depois da morte do médico, eram muitos os devotos que se deslocavam a esta far­mácia por acreditarem que os medicamentos que ali se vendiam ti­nham mais poder de cura do que os que eram adquiridos em farmácias «não aben-çoadas».

O FARMACÊUTICO E MÉDICO
Toda a vida fumou. Ganhou o vício quando veio para Lisboa. O rapaz do campo cresceu e transformou-se num jovem mundano de hábitos citadinos. Fumar era um dos seus grandes praze­res. Tão grande que mesmo após a sua morte os seus devotos lhe continuaram (e continuam) a levar maços de tabaco aos locais de culto. Conta-se que dava explicações aos colegas de escola para ganhar dinheiro para satisfazer este vício.
Na farmácia do tio foi subindo de posto. De aprendiz passou a iniciado, deixou de ser apenas moço de recados para ficar atrás do balcão a aviar os re­ceituários, mas aquilo que o fascinava era a elaboração dos medicamentos. O tio Lázaro percebeu que o rapaz, além de vontade, tinha jeito, e espicaçou-o a seguir os estudos na área de farmácia. Em 1861, José Tomás fez os testes de admissão para a Escola Politécnica de Lisboa e entrou no curso de Far­mácia com a lição já meio aprendida à conta do estágio com o tio. A sede de saber era tal que, ainda o curso de farmácia ia a meio, deci­diu tirar também o de medicina, na Escola Mé­dico-Cirúrgica de Lis­boa. Terminou um curso em 1864 e o outro e 1866, ambos com a classificação mais elevada da sua turma. Assim, ganhou direito ao «Dou­tor» que antecede o seu nome sempre que se lhe referem, mesmo quando lhe dirigem as orações. José Tomás passou então a ser o Dr. Sousa Martins.
Mesmo doutor nunca deixou de ir a casa, a Alhandra. A mãe foi o seu grande pilar. Se tinha devoção por algo além da ciência era pela sua velha mãe. E ele seria sempre «o seu pe­queno». Foi uma das mulheres da sua vida, a par da irmã Maria Leonor. Ainda que haja quem defenda que teve as suas paixões e que inclusivamente deixou um descendente. Outros diziam que teve filhos com várias mulheres. Outros há ainda que defendem que teve vários filhos da mesma mulher e que chegou mesmo a ter netos. No en­tanto, nunca foi provado que assim fosse e que alguma vez tenha sido pai.
Ainda que fosse submisso à mãe e à vida familiar, não era um homem sub­misso. De criança traquina a jovem re­belde, Sousa Martins nunca desperdi­çava uma oportunidade de rir ou de pregar partidas. Tinha um sentido de humor mordaz, que chegou a usar como meio de intervenção. Quando decidiu escrever sobre a sociedade lis­boeta do século XIX, fez uso dessa mordacidade. Usou o pseudónimo de Zehobb Cervador (leia-se: Zé Observa­dor) para descrever o que se passava numa terra apelidada de «Ocidental Praia» (em tudo semelhante a Portu­gal), onde falava dos habitantes, que se dividiam em dois grandes grupos: os «comlábia» e os «semlábia». A crítica incidia, sobretudo, no Zerrich Aço (leia-se Zé Ricaço). Este livro, Costu­mes da Ocidental Praia – Evolução d’uma Lei no Período Metaphysico­-Physico-Immoral, acabou por ser reti­rado das livrarias por decisão do pró­prio autor.
O HOMEM DOS MIL SABERES
Tinha um fascínio especial por aves, mas não foi apenas às aves que se de­dicou. Fez parte da comissão funda­dora do Jardim Zoológico e de Aclima­ção em Portugal, e manteve-se ligado a esta instituição até à data da sua morte. Amava a literatura e conta-se que a sua casa terá até sido um dos primeiros salões literários da época, tendo por ali passado nomes como Camilo Castelo Branco e Eça de Quei­rós. Foi sócio-funda­dor da Sociedade de Geografia de Lisboa. Chegou mesmo a ser diretor do Instituto In­dustrial e Comercial de Lisboa. Nunca quis saber de política, ainda que todos os partidos desejassem tê-lo como membro, em virtude do seu dom para a oratória. Apaixonado pela medicina e pela farmácia, fazia obvia­mente parte da Sociedade das Ciên­cias Médicas de Lisboa e da Socie­dade Farmacêutica Lusitana. Tudo o interessava. Tinha uma sede insaciá­vel de conhecimento.
Era irrequieto e progressista, e os seus alunos na Faculdade de Medi­cina foram os seus primeiros devotos. Era arrojado nas ideias e nas teorias, e muitas vezes o arrojo e a ironia va­liam-lhe inimigos, nomeadamente entre os seus colegas médicos. A en­fermaria de São Miguel, no Hospital de São José, estava a seu cargo. E era para ali que muitas vezes levava os seus alunos e lhes ensinava as maio­res lições de medicina, mas, mais im­portante, as maiores lições de huma­nismo. Quedava-se junto dos doentes, exercia todos os seus conhecimentos, e mesmo quando isso já não era sufi­ciente, ficava ali a consolar-lhes a alma.
Acabou por contrair a doença con­tra a qual tanto lutou ao longo da sua car­reira na medicina: a tuberculose. Ao chegar a Portugal, depois de ter participado numa conferência em Ve­neza, demonstrava um estado de saúde de­masiado débil. Dema­siado magro, com uma tosse profunda e in­controlável, refugiou­-se na sua terra, Alhan­dra. Recolheu à sua propriedade em São João dos Montes. Rapidamente sucumbiu à doença, que conhecia demasiado bem. Mor­reu a 17 de agosto de 1897. Apagou-se a luz mais brilhante do reino, disse­ram.
A admiração de que era alvo trans­formou-se rapidamente em devoção, e o povo, que não o esqueceu, tornou--o santo. Esta crença é de tal dimen­são que a maioria das pessoas desco­nhece a importância que este homem teve no desenvolvimento cultural e social do país na última metade do sé­culo XIX. Denominam-no santo, e muitos nem sequer sabem que não o é aos olhos da Igreja Católica; acredi­tam nos seus poderes transcendentais e, tal como os seus doentes, sentem o consolo de ser protegidos pela sua alma caridosa.
Assim é com Mariana Dias, que, de­pois de ter ouvido o tal zumbido nos ouvidos, faz o seu caminho passar pelo Campo dos Mártires da Pátria sempre que pode. Ali, deixa-lhe as suas flores e as suas preces. Sente-se tocada por uma tranquilidade sem fim, e por isso, quando se vem em­bora, nunca lhe vira as costas, vem sempre de olho no seu Sousa Martins até o perder de vista.
Quando construiu a casa na terra, Mariana queria pôr-lhe um painel de azulejos com a imagem do seu santo, mas temeu que as pessoas da terra in­terpretassem mal a sua devoção e co­meçassem com o falatório das bruxa­rias e crendices tantas vezes associa­das ao médico. Optou por uma imagem da santa padroeira da terra, para evitar conversas. O que não dis­pensa nunca é o busto de Sousa Mar­tins que tem na cabeceira e que é a primeira imagem que tem quando acorda e a última que vê antes de adormecer, depois das suas orações. No seu coração, o homem que nunca foi santo e que nunca acreditou nas coisas da Igreja é o seu maior amparo.
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