Álbum de Figurinhas, colecionando histórias



As primeiras coleções de figurinhas e cromos editados no Brasil datam do final do século XIX. Colocados como brindes em carteiras de cigarros, foram utilizadas como marketing promocional pelas companhias Grande Manufactora de Fumos e Cigarros Veado (José Francisco Corrêa & Cia – Rua da Assembleia nos 94 a 98 – Rio de Janeiro), Souza Cruz e Sudam, basicamente no eixo Rio – São Paulo. Os protagonistas do movimento republicano até 1900, os animais do jogo do bicho, e as artistas de cinema, teatro, e cabaré, foram os temas prediletos das coleções. Além da grande maioria das estampas ou cromos apresentarem cuidadoso tratamento gráfico, o fato de algumas coleções completas darem direito a prêmios estimulou ainda mais o interesse por elas, o que é possível observar através de inúmeros anúncios de jornais daquele período, onde produto e respectivo brinde são divulgados com idêntica importância.



Assumindo em 1903 a direção do Horto Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro em Jundiaí, Estado de São Paulo, o engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade iria, com o desenrolar de sua atuação, propiciar a produção dos produtos Eucalol na cidade do Rio de Janeiro, cerca de 23 anos mais tarde. Pesquisando qual a árvore que melhor atenderia às necessidades da companhia com relação à lenha necessária para alimentar as fornalhas das locomotivas à vapor, Navarro de Andrade chegou à conclusão que o eucalipto era a mais indicada. Seus ensaios foram tão inquestionavelmente conclusivos que a empresa adquiriu mais terras na cidade de Rio Claro, Estado de São Paulo, intensificando a cultura do eucalipto. Em 1924 a Companhia Paulista já possuía oito milhões de eucaliptos plantados em nove propriedades agrícolas, ao longo de suas linhas férreas e distribuídos de acordo com as necessidades de combustível. Como subproduto da árvore, as folhas eram vendidas para produtores locais, que fabricavam essência de eucalipto e, dada a quantidade que passou a ser ofertada, a essência de eucalipto passou a ser ofertada no mercado brasileiro com preço barato.



Em 1917 o imigrante judeu alemão Paulo Stern, químico de profissão, estabelece-se com negócio de essências na Rua São Pedro, rua esta que desapareceu quando da abertura da Av. Presidente Vargas. Após o término da 1ª. Guerra Mundial, em 1919, aqui chega o irmão Ricardo Stern, que ingressa na sociedade e a dinamiza. Face à disponibilidade de essência de eucalipto, planejaram os irmãos Stern a construção de uma fábrica onde seriam manufaturados produtos para toalete. O prédio foi inaugurado em 1924 e em 1926 foram iniciadas as vendas do sabonete EUCALOL.

Sem terem efetuado a devida pesquisa do produto antes de sua fabricação, condição básica de um perfeito planejamento de marketing, os irmãos Stern foram surpreendidos com a recusa dos varejistas e consumidores ao produto: sua cor era verde e o mercado estava acostumado a sabonetes com cores branca ou rosa. Partiram para a divulgação do produto por meio de anúncios, inclusive realizando em 1928 concurso de versos, com distribuição de prêmios aos vencedores. Mas os resultados não foram satisfatórios e, os irmãos Stern desenvolveram outra estratégia de marketing promocional: a colocação de 3 estampas dentro de cada caixa que continha 3 sabonetes Eucalol. 

Tudo indica que esta ideia ocorreu em virtude de, em sendo alemães, terem vivido o intenso colecionismo de estampas Liebig na Alemanha, visto o álbum das estampas Eucalol ser idêntico ao álbum das Liebig, as séries serem também em número de 6 e, duas séries das Eucalol serem idênticas às das Liebig (A Conquista do México e O Descobrimento do caminho marítimo para a Índia). O tremendo sucesso deste marketing, com o colecionismo das estampas Eucalol, elevou a Perfumaria Myrta ao píncaro do mercado brasileiro de sabonete e propiciou o sucesso de outro produto, aproveitando o intenso hobby que se manifestava na população: as balas com figurinhas premiadas.



Em 1928 surge no mercado brasileiro o álbum “Novo Mundo”, da Fábrica de Balas e Biscoitos Novo Mundo (Pedro Tarnowsky & Cia – Av. Celso Garcia no 230 – São Paulo), oferecendo prêmios como bicicleta, rádio, relógio e máquina fotográfica aos que conseguissem completá-lo, sem que, entretanto, tenha obtido grande sucesso, tanto é que não renovou a experiência. Restou-lhe a primazia de ter lançado no Brasil o primeiro álbum, pois, até então, nenhuma figurinha ou cromo tivera álbum para o seu colecionismo feito especialmente pela empresa promotora.

Não se sabe ao certo o ano em que a Fábrica de Balas A Hollandeza (Weissiana & Cimelfarb – Rua Lava-pés no 69A – São Paulo) lançou o seu primeiro álbum, estima-se ter sido cerca de 1931. Embora não tenha alcançado grande sucesso, imagina-se que, vendo nos anos seguintes o colecionismo que se manifestava com as “ESTAMPAS EUCALOL”, resolveu relançar o álbum em 1934, aí sim, causando verdadeiro furor na população do eixo Rio – São Paulo. Pessoas que vivenciaram está época contam que, no Rio de Janeiro, no largo da Carioca, perto da Galeria Cruzeiro, reuniam-se vários grupos, enormes, negociando e trocando figurinhas. Em Santos o assunto foi objeto de matéria de primeira página do jornal “Tribuna de Santos” de 7 de novembro de 1934. A figurinha difícil deste álbum, série 1 no 11, O Clavel do Ar, é a que teve maior repercussão até hoje dentre as figurinhas brasileiras, chegando a ser vendida por cem mil réis.


Em seguida, vários fabricantes de balas lançaram seus álbuns como “A Irlandeza”, “Atlas”, “Bichos”, “Chiquinho Caramelo Premiado” e outros mais, sem que tenham alcançado o mesmo sucesso de “A Hollandeza”. Na década de 1940, destacam-se os álbuns da Cia. Jardim de Cafés Finos (Avenida Tiradentes, 176 – São Paulo), “Álbuns Fruna” (Casa Falchi S.A. Indústria e Comércio– Av. Tiradentes no 16 – São Paulo) e na de 1950 o “Álbum das Balas Ruth” (Fábrica de Doces Ruth Ltda – Rua Diomedes Trota no 520 – Rio de Janeiro).


“Monteiro Lobato foi um pioneiro também no campo dos álbuns de figurinhas, pois criou para a Cia. Jardim dois dos seus mais famosos álbuns: “A Aventura do Barão de Munchaussen” e “Um Sonho na Caverna”.



Quem viveu no Brasil após a 2ª Guerra Mundial e não se recorda das “Balas Fruna”? O produto era bom, diferente da grande maioria das balas que usavam o marketing das figurinhas premiadas para conquistarem o público consumidor. De qualquer forma, o colecionismo incentivava as vendas, e a Falchi editou 4 álbuns, todos com artistas de cinema. O último e mais famoso tinha a “figurinha difícil” de número 34, o artista Nils Aster. Eu colecionei este álbum, e como muita gente, busquei em vão a “maldita” no 34.




A “indústria” da figurinha difícil nas balas premiadas estava chegando ao fim. Ao regulamentar a Lei no 5.768 de 20 de dezembro de 1971, o Governo Federal, através do Decreto no 70.951 de 9 de agosto de 1972, em seu artigo 11, determina que “não serão autorizados os planos que tenham por condição a distribuição de prêmios com base na organização de séries ou coleções de qualquer espécie, tais como símbolos, gravuras, cromos (“figurinhas”), objetos, rótulos, embalagens ou envoltórios”.

Na década de 1980

Os Estados de São Paulo e Espírito Santo desenvolveram campanhas para aumentar a arrecadação do ICM (Imposto de Circulação de Mercadorias), trocando determinado valor de notas fiscais por pacote de figurinhas. O “Paulistinha” chegou a originar o “figureiro”, uma nova profissão informal, gente vivendo de negociar as figurinhas que eram avidamente disputadas pela população. E no Espírito Santo, com os 2 álbuns “Amigos do Jucapixaba”, ocorreu um aumento de arrecadação do imposto de cerca de 40%, tendo esta campanha ganhado o Prêmio Top de Marketing 1981.

 A compulsão que todos têm, em maior ou menor grau, de juntar peças e coisas da mesma natureza e guardar, principalmente as crianças, faz com que as figurinhas tenham vida eterna. Hoje em dia mudou o foco, não se ganha mais prêmio material ao preencher totalmente o álbum, além do prêmio maior da própria satisfação de tê-lo completado. Aí está a Grupo Panini para dizer se figurinha tem público, tendo faturado em 1999 cerca de 200 milhões de dólares, possuindo 643 funcionários e distribuindo produtos em mais de 100 países.

Como disse Artur da Távola: “A figurinha nos permite, afinal, anos e anos depois, ter um reencontro cheio de saudade com os heróis, os mitos e os mágicos que encantaram os melhores sonhos da infância e juventude. Eles nunca mais nos abandonam, ainda que durando apenas como emocionada recordação. Eles são o que fomos em estado de exaltação e fantasia. São o cortejo encantado dos nossos sonhos. ”


Créditos: Álbuns “Novo Mundo” – “Um sonho na caverna” – “Fruna” – “Ruth” – Acervo Prof. Margarida Menezes Álbum “As aventuras do Barão de Munchaussen” – Acervo José Vinicius do Amaral Demais imagens – Acervo Samuel Gorberg

Fonte: http://www.brasilcult.pro.br/ensaios/figurinhas/figurinhas.htm
Montagem: JF Hyppólito
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